Sexologia Clínica

Neste espaço os usuários e visitantes do Fórum Anti-Homophobia, podem encontrar material informativo e de divulgação.
Apenas a profissional em questão pode criar tópicos neste sub-fórum.

Sexologia Clínica

Mensagempor Psicóloga em 26 Jun 2009, 14:05



“...A consciência do que se passa hoje no domínio da sexualidade é uma aproximação de dupla face: por um lado, falamos livremente a sexualidade e, por outro lado, a sexualidade fala livremente em nós. E esta relação de diálogo entre nós com a sexualidade, falando livremente nela e deixando que ela fale livremente em nós, acaba por nos projectar para uma relação entre a sexualidade e o amor que é (...) uma reflexão de linha aberta, de campo aberto onde eu julgo que a palavra de ordem será a liberdade...”. Laborinho Lúcio (2003)

"Sexualidade humana: do espanto pela indignação...

Segundo a Organização Mundial de Saúde (2004), a “Sexualidade é o aspecto central do ser humano ao longo da vida e engloba o sexo, identidades de género e papéis, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A Sexualidade é experienciada e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relacionamentos”.

Falar de Sexualidade é falar também de Sexologia, sendo esta a disciplina que trata da Sexualidade nas suas diferentes dimensões: biológica, psicológica, sociocultural, jurídica e ética.

A história da Sexologia é longa, tendo, como qualquer outra ciência, momentos de avanço e de recuo. Não cabe aqui descrever ou referir quais os marcos importantes do seu percurso, uma vez que estes se encontram referenciados numa qualquer obra da especialidade; contudo, é de todo o interesse abordar como é que a Sexualidade é vista pelos olhos da Psicanálise, ou mais concretamente, pelos olhos do seu fundador: Sigmund Freud. Pode colocar-se a questão: Porquê a Psicanálise neste ponto? Era possível enumerar várias respostas, contudo, apenas uma resposta elucida qualquer leitor: na actualidade quando se trabalha na área da Sexologia dá-se maior importância às estratégias comportamentais, estabelecendo protocolos terapêuticos assentes em tarefas comportamentais. Agora questiona-se: na sexualidade humana não haverá mais nada para além do «comportamental»? A resposta torna-se evidente - não estivesse este capítulo a ser delineado desta forma...

Traçando dois «vectores» de distâncias distintas; por um lado, o «vector» Sexualidade, e por outro lado, o «vector» Psicanálise (passando a analogia, mas não a vibração que dela emana); chegar-se-á a um ponto em que estes dois «vectores» se tocam numa reunião magnificente (quer pela novidade que trouxe, quer pela indignação que provocou). Esta situação está evidente na obra Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade apresentada por Freud à pouco mais de um Século.

Aquando da publicação desta obra, no início do Século XX, Freud indignou o mundo ao referir a existência de uma Sexualidade Infantil. Numa altura em que todas as actividades sexuais que não estivessem directamente envolvidas na procriação, tais como sexo oral, sexo anal, sadomasoquismo, exibicionismo, voyeurismo, fetichismo, eram consideradas como desvios sexuais, Freud chocou o mundo ao dizer que a Sexualidade está presente desde o nascimento.

Embora hoje conceitos como “auto-erotismo, pulsões, instintos sexuais, complexo de Édipo, entre outros” , façam parte do quotidiano e estejam presentes em livros e em revistas de várias especialidades, foram necessárias algumas décadas para se aceitar que é preciso compreender a Sexualidade no contexto de uma teoria do desenvolvimento psíquico.

Segundo Freud (1905) “cada elemento da nossa matriz erótica (pele, paladar, olfacto, tacto, etc.) - e nas suas diversas actividades associadas (cheirar, chupar, tocar, etc.) - poderia, sob circunstâncias diversas, conhecer maior ou menor grau de autonomia nas nossas fantasias e tornar-se predominante ao longo do desenvolvimento psicossexual” .

Tendo em conta o referido acima, Freud (1905) elabora a sua Teoria do Desenvolvimento Psicossexual, na qual define e caracteriza cinco fases: a fase oral, a fase anal, a fase fálica, a fase de latência e a fase genital. Contudo, estas fases não estão claramente delimitadas ou separadas umas das outras, mas sim, passam de uma forma gradual de uma para outra, por vezes, sobrepondo-se.

Adoptando uma postura não moralista e avançada até mesmo para os parâmetros actuais, Freud (1905) acabou por afirmar que estas práticas (sexo oral e anal, sadomasoquismo, exibicionismo, voyeurismo, fetichismo, etc.) só deveriam ser tratadas se trouxessem sofrimento e afectassem a totalidade da psique, o que depende do contexto social e cultural em que ocorrem. Assim, Freud ajudou a humanizar e a normalizar (não a normatizar) a visão destas práticas (passíveis de condenação social e judicial no seu tempo), encarando-as como peculiaridades individuais ou como preliminares que enriquecem a vida sexual do indivíduo.

Deste modo, quando se trabalha nesta área há que ter em conta todas estas questões, e, acima de tudo, mais do que prescrever protocolos terapêuticos, torna-se pertinente perceber tudo aquilo que não é dito e que pode estar a condicionar a actividade sexual do Paciente ou do Casal.

Júlio Machado Vaz (2001) partilha uma ideia bastante importante e relevante: “para um sexólogo de inspiração psicodinâmica, a sexualidade é uma dimensão importantíssima da vida das pessoas. Encarada como um produto de momentos históricos e culturais e não como um «instinto atípico» que representasse o que em nós resta de verdadeiramente natural numa sociedade que se afastou das suas raízes biológicas.” .

Em suma, embora considerando sempre o muito que ainda não sabemos, Freud abriu caminhos e arriscou hipóteses, muitas das quais serão rejeitadas, outras aperfeiçoadas - cabe a quem se interessa e ocupa por esta área escolher....

...à modernidade das suas práticas

Já dizia o poeta: o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança... A Sexologia também avançou. Qual o rumo que escolheu? Nenhum em particular, mas vários no seu conjunto...

Ao falar de Sexologia não se pode deixar de falar dos problemas que podem afectar a Sexualidade do ser humano, mais conhecidos como Disfunções Sexuais. Estas encontram-se reunidas em seis grupos, cada um constituído por diversos pontos. Entre eles: Perturbação do Desejo Sexual (Perturbação do Desejo Hipoactivo e Aversão Sexual), Perturbação da Excitação Sexual (Perturbação da Excitação Sexual na Mulher e Disfunção Eréctil no Homem), Perturbações do Orgasmo (Perturbação do Orgasmo na Mulher, Perturbação do Orgasmo no Homem e Ejaculação Precoce), Perturbações de Dor Sexual (Dispareunia e Vaginismo), Parafilias (Exibicionismo, Fetichismo, Frotteurismo, *********, Masochismo Sexual, Sadismo Sexual, Fetichismo Transvertido e Voyeurismo), e Perturbações da Identidade de Género (Em Crianças, Adolescentes ou Adultos e Sexualmente Atraído por Homens, Mulheres, por Ambos, ou por Nenhum).

De uma forma geral é o Terapeuta Sexual que tem maior competência para ajudar o casal ou o indivíduo a solucionar as dificuldades vivenciadas na sua Sexualidade. Assim, faz todo o sentido contextualizar a Terapia Sexual, tal como as suas Estratégias de Intervenção, com todos os condicionantes que isso implica.

A Abordagem Moderna da Terapia Sexual teve início em 1970, com a publicação do livro de Masters & Johnson, Human Sexual Inadequacy , vindo preencher um vazio aos terapeutas a quem faltava uma abordagem abrangente e sistemática dos problemas sexuais.

Em 1975, surgiu o livro de Kaplan, The New Sex Therapy , combinando as ideias de Masters & Johnson com uma mistura de conceitos psicanalíticos e uma abordagem muito mais flexível e menos estruturada.

Na Europa, o texto mais importante sobre a Terapia Sexual foi o de Arentwicz e Schmidt (1983), The Treatment of Sexual Disorders , no qual os autores utilizaram uma abordagem diferente da de Masters & Johnson, dando uma maior relevância aos aspectos comportamentais.

Actualmente, considera-se como objectivos da Terapia Sexual: ajudar a pessoa a aceitar e sentir-se confortável com a sua Sexualidade, ajudar o casal a estabelecer uma condição de confiança e segurança emocional durante a interacção sexual, e ajudar o casal a explorar formas de aumentar a satisfação e a intimidade no acto sexual.

À primeira vista, estes objectivos parecem demasiado vagos quando comparados com os objectivos específicos que os pacientes trazem, nomeadamente, melhorar as erecções, atrasar a ejaculação ou atingir o orgasmo. Tal deve-se ao facto de que uma focalização em objectivos tão específicos pode ser, em larga medida, apenas uma parte do problema, tornando menos visíveis outros problemas que poderão estar subjacentes.

Pela razão citada acima é de toda a utilidade que o Terapeuta efectue uma Entrevista o mais completa possível. A Entrevista em Terapia Sexual inclui a descrição pormenorizada pelo paciente do seu problema sexual específico, procurando também obter uma descrição do mesmo pelo(a) parceiro(a).

Deve-se precisar o problema, nomeadamente, como e quando começou, o tempo de evolução, como foi vivenciado pelo indivíduo e seu(sua) parceiro(a), a alteração consequente na relação do casal, e as medidas eventualmente experimentadas para a sua resolução.

É, também, importante a colheita de dados referentes ao tipo e qualidade de educação/informação sexual recebida (crenças e mitos), à experiência sexual desde o inicio do envolvimento genital (problemas ligados à masturbação), aos conflitos em relação ao papel masculino ou feminino (modo como foi estruturado e detecção de possíveis conflitos e bloqueios em tal percurso) e ao modo como é visto o papel do outro no contexto da relação e no contexto social, à existência de ansiedade e sua origem, à vida de fantasia e ao desejo erótico, à atitude do(a) parceiro(a) face à sexualidade e face à disfunção presente, etc. (Fonseca, 2003)

Deverão procurar-se informações relativas ao comportamento sexual habitual do casal, nomeadamente no que respeita à frequência das relações, à frequência e qualidade dos orgasmos, às formas e tempos de excitação e estímulos significativos ou inibidores da mesma.

Por fim, são abordados temas relacionados com as actividades do dia-a-dia e a sua influência no comportamento sexual, sendo também anotado o uso de medicamentos ou outras substâncias químicas (drogas, álcool, etc.) que podem afectar a fisiologia da resposta sexual.

Esta é uma das fases mais importantes da Terapia Sexual, uma vez que é a partir do maior número de dados recolhidos durante a Entrevista que se elaboram as Estratégias de Intervenção a utilizar no caso específico.

Actualmente, nas várias abordagens usadas terapeuticamente em muitas disfunções sexuais, os procedimentos passam principalmente pela educação e informação, treino comunicacional e focos sensoriais.

A informação ajuda a corrigir crenças que mantêm e afectam ou inibem o comportamento sexual, como a de que “a erecção deve surgir primeiro antes de qualquer actividade sexual, como sinal de interesse sexual e desejo; a relação sexual é a única forma de fazer sexo; ou um homem que não tem uma erecção antes de uma interacção sexual não toma parte no sexo” .

Deste modo, informar cuidadosamente pode por si só resolver uma situação aparentemente disfuncional. Por exemplo, informar o casal ou o indivíduo de que factores biológicos (p. ex. diabetes) podem ter um papel significativo na disfunção, contribui para a diminuição da culpa existente, ou informar das vantagens do uso de um lubrificante ******l pode por si só ajudar a resolver o problema.

Em suma, dar informação adequada implica que o casal ou o indivíduo tenha uma melhor compreensão da função sexual, da sua variabilidade e dos múltiplos factores que ao longo da vida o podem afectar.

Para além da falta de informação (ou informação distorcida), há que ter em atenção os problemas de comunicação que por vezes afectam o casal.

Ao longo de todo o processo pretende-se que o terapeuta não seja um continuum desta situação, devendo este ser um bom modelo de comunicação durante as sessões. Para isso deve tomar uma atitude de empatia, ouvir de forma activa, pedir ao casal para se exprimir de uma forma clara ou sugerir outras aptidões de comunicação.

É, deste modo, essencial que o Terapeuta “possa adoptar uma abordagem natural, indispensável nesta situação, utilizando uma linguagem clara e concisa e pedindo feedback ao casal ou ao individuo, abstendo-se do papel de juiz ou árbitro e explicando sempre as razões daquilo que sugere como tarefas terapêuticas” .

Quando surgem comentários como “Esta reacção nela não é normal, pois não Dr.?” ou “Eu tenho razão no que digo, não é Dr.?”, a atitude do terapeuta deve ser de elemento facilitador da comunicação entre o casal, permitindo-lhe avaliar porque surgem estes comentários e qual a melhor forma de dar resposta.

Depois de vistas estas questões relacionadas com a informação e com a comunicação, chega a altura de prescrever trabalhos para casa com o objectivo de desenvolver no casal ou no indivíduo a capacidade de tomar consciência de, e a focar-se nas sensações eróticas de dar e receber prazer, num esforço de modificar a atitude de ficar como espectador da sua própria execução ou performance.

Para a remissão da disfunção é necessário passar por várias etapas, sendo que os métodos actuais implicam incentivar o casal a um envolvimento físico e emocional.

A abordagem deverá ser “estruturada, mas flexível; estruturada, na medida em que as instruções são dirigidas de uma forma explicita para a intimidade; flexível, porque o casal pode e deve adaptar os exercícios às suas circunstâncias e dificuldades, para conseguir maior conforto na relação” .

Falar de Sexualidade é falar de todas estas questões que são de extrema importância para qualquer Técnico que trabalha ou colabora na área de Sexologia Clínica. Mas é possível questionar: haverá verdades únicas e irrefutáveis? A resposta será não. Cada Técnico acabará por descobrir o seu próprio caminho, aquele que lhe fará mais sentido. Mais do que tomar o «ar quente» que emana dos livros como verdades absolutas, vale sempre a pena fazer uma pausa no sobrecarregado dia-a-dia clínico e reflectir um pouco sobre aquilo que o transcende, descobrindo, assim, «novas brisas» e novos rumos. Não permanecemos sentados à espera que uma singela abelha nos traga um pouco do seu mel, mas sim, correremos os campos à procura do verdadeiro pólen..."

Avatar de usuário
Psicóloga
Membro Caloiro
 
Mensagens: 20
Data de registro: 09 Jun 2009, 19:25
---------

Retornar para Material informativo e de divulgação da Psicóloga

Quem está online

Usuários vendo este fórum: Nenhum usuário registrado online e 0 visitantes

cron