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Mensagempor Angel/Devil em 13 Set 2008, 17:17

Tópico para conversar sobre arquitectura. ;)
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Angel/Devil
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Re: Arquitectura.

Mensagempor Lady Connata em 12 Out 2009, 23:30

Partilho aqui uma das crónicas escritas pelo historiador e escritor Rui Tavares na revista Blitz e reunidas no livro O fiasco do milénio, e que achei muito interessante pelo facto de me dar a conhecer factos até então desconhecidos para a minha pessoa.



Gostaria de começar esta crónica pelo ínicio dos anos 50, no momento em que um jovem arquitecto recebeu pela primeira vez um grande projecto. Mas antes vejo-me obrigado a chamar a atenção para o facto de cada disciplina artística ter a sua definição de juventude. Na música, pode ir até aos cinco anos, a idade com que Mozart, depois de já ter composto as suas primeiras peças, se apresentava tocando de olhos vendados e com as mãos cruzadas. Na pintura, pode andar à volta dos 25 anos, idade com que Andrea del Verrochio desistiu de ensinar a sua arte a Leonardo da Vinci por achar que o discípulo já o tinha ultrapassado. Mas não se entregam grandes projectos a jovens de 25 anos. Jovem aqui quer dizer «praticamente 40 anos», principalmente se o arquitecto pertence a uma minoria racial, vem de uma família pobre ou é baixo.
Minoru Yamasaki era as três coisas. Os seus pais tinham vindo do Japão para Seatle no início do século xx. A mãe tocava piano, o pai trabalhava nas vendas. A família não tinha dinheiro, nem pergaminhos na terra. Até a família que tinha ficado no Japão se dava melhor na vida. Um dos tios era arquitecto e, quando veio visitá-los aos Estados Unidos, Minoru percebeu imediatamente que só podia querer ser arquitecto na vida. Para pagar a universidade, apanhava no Verão o barco para o Alasca e passava meses a trabalhar numa fábrica de enlatados de salmão. Detestava o trabalho. A fábrica parecia uma prisão, os colegas pareciam condenados, e tudo aquilo lhe dava ainda mais vontade de acabar o curso depressa. Conseguiu a licenciatura e candidatou-se ao mestrado. Chegou a Nova Iorque, para estudar na Columbia University, com 40 doláres no bolso. Mas as coisas podiam ter sido piores. Se tivesse ficado em Seatle, teria certamente sido internado num campo de concentração, tal como aconteceu a mais de cem mil japoneses e nipo-americanos da costa oeste durante a Segunda Guerra Mundial (o racismo antijaponês estava no auge: apesar do nazismo, os americanos descendentes de alemães não sofreram perseguições equivalentes). Minoru teve a sorte de passar esses anos trabalhando como desenhador e aprendiz nos ateliês que construíram o Empire State Building e o Rockefeller Center, em Nova Iorque.

Quando a guerra acabou, já era um homem casado e com três filhas. Tinha de sustentar a casa. Aceitou um emprego como desenhador numa fábrica de automóveis e mudou a família para Detroit. Na nova cidade fundou um ateliê com dois sócios americanos de gema e as encomendas começaram finalmente a aparecer. Mas Minoru sabia que tinha potencial de grandeza; quando o estado do Missouri os abordou com o projecto de um grande complexo de habitação popular da capital, Saint Louis, Minoru agarrou-o com unhas e dentes. Esta ia ser a sua grande obra. Desenhou com afinco 33 blocos de apartamentos, seguindo os princípios de Le Corbusier: a «cidade das torres», com prédios transversais às estradas, deixando espaços livres para jardins e praças comuns, espaços comunitários no interior dos edifícios, construções panorâmicas com uso generoso do vidro e habitações modulares para grandes famílias, no número total de 2800 apartamentos.

O nome do projecto era Pruitt-Igoe e estava dividido em duas partes: a Captain O.W. Pruitt, em honra a um piloto negro, era exclusivamente para famílias «de cor»; a William L. Igoe, a partir do nome de um político branco, apenas para famílias brancas. O orçamento inicial era de 36 milhões de dólares para um terreno de 23 hectares e, tal como sonhara Minoru, o projecto foi a sua consagração. Pruitt-Igoe ganhou um prémio de arquitectura ainda antes de estar acabado, as encomendas para novos trabalhos sucederam-se e Minoru Yamasaki tornou-se no nome a contratar para chamar a atenção dos jornais.
Aos 43 anos, Minoru foi seleccionado para uma lista dos arquitectos mais importantes do século, junto com Lloyd Wright, Corbusier, Mies van der Rohe e apenas outro asiático, mais jovem do que ele – I.M. Pei -, que depois viria a fazer a pirâmide do Louvre. Durante o resto da década de 50, os seus novos trabalhos geraram admiração e aplauso. Em 1962 veio a coroa de glória pública: o filho de imigrantes japoneses, acabado de completar 50 anos, fez a capa da revista Time.
Entretanto, as coisas em Pruitt-Igoe não corriam bem. Depois do Supremo Tribunal americano ter declarado que a segregação era inconstitucional, o estado do Missouri foi obrigado a misturar as secções branca e negra da urbanização. As famílias brancas recusaram-se a ficar; os políticos recusaram-se a meter mais dinheiro no projecto. Os empreiteiros construíram usando os materiais mais baratos. No dia da inauguração, um dos elevadores falhou; alguns anos mais tarde era assustador andar nos poucos que ainda funcionavam. As verbas para manutenção tinham sido cortadas. As maçanetas das portas e janelas caíam nas mãos dos moradores. Os vidros partidos não eram substituídos. As canalizações eram de má qualidade e tinham fugas; houve uma explosão de gás e o entulho não foi removido. Apareceram ratos e baratas.
Veio o Vietname, e os homens adultos foram recrutados. Os que ficaram estavam desempregados. O tráfico de droga tomou conta do bairro. Os gangues disparavam de uns prédios para outros. Após o assassinato de uma funcionária da habitação social, os empregados das companhias de gás e electricidade recusaram-se a trabalhar em Pruitt-Igoe. O estado não mandava policiamento para os proteger. Os inquilinos revoltaram-se e fizeram uma greve de nove meses para chamar a atenção para o abandono a que estavam sujeitos.
Em 1972 o estado do Missouri acabou por decidir implodir os 33 blocos de edifícios.

Durante estes anos, a vida pessoal de Minoru deu também uma volta de 180 graus. Depois de se divorciar e passar por dois novos matrimónios fracassados, acabou por voltar a casar com a primeira mulher. E aos 60 anos, depois de saborear o sucesso efémero, descobria agora que tinham feito dele o símbolo de tudo o que estava errado na arquitectura. Os políticos, os sociólogos, os urbanistas e os arquitectos da nova geração apontavam-lhe o dedo por causa de Pruitt-Igoe. Acusavam-o de ter cedido à arrogância modernista, de ter planificado em excesso ou não ter planificado o suficiente. Para juntar a humilhação ao desastre, um crítico de arquitectura lembrou-se de declarar que a primeira obra do pós-modernismo não tinha sido nenhum edifício ou manifesto teórico mas, simplesmente, a implosão de Pruitt-Igoe. A moda pegou e fez da demolição da primeira obra de Minoru um marco histórico. A verdade era esta: Minoru Yamasaki era o autor do maior desastre arquitectónico de sempre. A única solução era tentar reconstruir a sua carreira. Foi aceitando novos trabalhos, principalmente aeroportos e edifícios monumentais na Arábia Saudita. E, por felicidade, iam finalmente arrancar as obras de um concurso da Autoridade Portuária de Nova Iorque que havia ganho anos antes. Toda a gente dizia detestar o projecto, mas para Minoru representava a oportunidade para voltar a ter uma grande obra em solo americano. Uma grande obra, não. A maior de todas: um complexo de uma dezena de edifícios em torno de uma enorme praça no sul de Manhattan, coroado pelos dois maiores arranha-céus do mundo, de 415 metros de altura cada. O conjunto chamar-se-ia Worl Trade Center e foi inaugurado em 1973. ao contrário de Pruitt-Igoe, que durou 17 anos, as torres gémeas do WTC iriam deixar a sua marca para a eternidade. Minoru Yamasaki era um homem bem intencionado. Dizia que o seu papel era criar beleza para as pessoas viverem nela. Mas era também – só pode ter sido- o arquitecto mais azarado de sempre.




TAVARES, Rui; O Fiasco do Milénio e outas tragédias menores; Edições Tinta da China; 2009; pags 26 - 30
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