Adolescência

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Adolescência

Mensagempor Psicóloga em 26 Jun 2009, 14:12


“O adolescente é um ser em devir, que se debate com dificuldades várias, mas que possui um enorme potencial de realização e desenvolvimento. Paradoxalmente - ou talvez não! - o adulto comporta-se, em regra, e em face dele, como alguém que lhe obstrui o caminho do seu futuro. Esta é a realidade psíquica do adolescente, o que ele imagina; mas também (...) uma realidade que existe de facto, e que ele, adolescente, descobre por detrás da cortina de fumo com que o adulto se defende e pretende confundi-lo. De adultos inseguros, temendo ser ultrapassados pelos jovens, ou, em linguagem vernácula, de homens «maduros» impotentes e do tipo «empata cópulas» ou «desmancha-prazeres», está o mundo cheio; que não o sejam, pelo menos, aqueles que se ocupam de jovens.”
António Coimbra de Matos (2002)


Ao observar a forma como se desenrola a adolescência nos diferentes países e nas diferentes culturas do nosso planeta verifica-se que a tese da universalidade e da homogeneidade é posta em causa. Tal deve-se ao facto de que as relações entre adolescentes e adultos são diferentes consoante o país e as culturas, a duração da adolescência e os métodos adoptados para a socialização do indivíduo.

Contudo, analisar ou descrever a adolescência segundo uma abordagem sociológica ou antropológica não é o objectivo deste capítulo. Muito menos o é explicitar quais as mudanças a nível biológico e somático que ocorrem na adolescência. Pretende-se sim descobrir como se processam as mudanças e transformações na vida psíquica do indivíduo nesta fase da sua vida.

Antes de entrar pelos caminhos fascinantes mas bastante atribulados da adolescência, surge a necessidade de definir este conceito. Segundo Matos2 (2002) a adolescência é o período em que o indivíduo consolida a sua identidade, não de uma forma definitiva, mas num foco dinâmico do vivenciar, pensar e agir.

É nesta fase da vida que surge a famosa questão «quem sou eu?». Esta é uma pergunta à qual o adolescente tenta responder, contudo, para que se possa reencontrar, o adolescente precisa de se voltar para si e para o seu próprio funcionamento mental. (Marcelli , 2000)

Em 1905 surge a revolucionária obra de Freud, Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, que trouxe uma gigantesca contribuição à compreensibilidade da sexualidade infantil, bem como às transformações da puberdade. Construindo-se na oscilação do investimento narcísico, no aproximar do outro e no assimilar das suas qualidades, assim como no contraste e no afirmar-se de si próprio, Freud considera que a sexualidade não se iniciaria com o funcionamento das glândulas sexuais na puberdade, mas exprimir-se-ia desde o nascimento. Deste modo, a sexualidade não se limitaria ao acto sexual entre duas pessoas, mas sim, era toda a actividade pulsional - a libido - que tende a uma satisfação.

O início da puberdade é marcado pelo descobrir do objecto sexual, sendo que até ao momento era o impulso sexual proveniente de impulsos parciais e de zonas erógenas, que de uma forma independente, actuavam sobre determinado prazer. Nesta fase as zonas erógenas submetem-se ao predomínio da zona genital, conduzindo a vida sexual infantil à sua forma definitiva e normal.

Bloss (1962) divide a adolescência em cinco fases distintas de desenvolvimento, contendo cada uma as suas exigências e características próprias, sendo elas: a pré-adolescência, na qual o pré-adolescente faz a resolução da fixação à mãe fálica através de um processo de identificação com esta (homossexualidade manifesta); a adolescência precoce, na qual surgem as tendências bissexuais, onde os instintos parciais (orais, anais, fálicos) se fundem e a genitalidade obtém a primazia; a adolescência propriamente dita, onde se opera o desinvestimento dos pais interiorizados, permitindo que o adolescente escolha o objecto heterossexual; a adolescência tardia, onde se opera uma delimitação das fronteiras do Eu, permitindo experimentar uma forma individual de viver; e a pós-adolescência, fase onde termina o crescimento da personalidade do adolescente através da harmonização do conjunto das pulsões e a organização do Eu.

Para Mijolla (2002) a adolescência é um período de modificações que permitem chegar à fase de prazer genital e a uma aproximação do corpo sexuado.

De uma forma geral pretende-se que estas modificações levem a um crescimento psíquico e emocional do púbere, contudo, falar de crescimento é também falar da dor que este pode causar. Mas esta é uma dor possível e susceptível de ser ultrapassada. Coloca-se a questão: Como? Por vezes para criar algo de novo é necessário «chorar» aquilo que se perdeu para, então, poder avançar no sentido literal do termo. Obviamente, este «chorar» tem sentido se for encarado no seu sentido figurativo. No entanto, na literatura encontra-se o termo «luto» para caracterizar o processo que se pretende analisar de seguida.

Este luto não é entendido no sentido real do termo, ou seja, como um sentimento humano de pesar pela morte de outro ser humano. Mas sim, como refere Ana Freud (1965) o luto corresponde ao esforço de realização das várias mudanças no mundo interior necessárias ao crescimento do adolescente e, concomitantemente, a uma abertura ao exterior.

Deste modo, o adolescente terá de alterar a imagem do pai e da mãe à qual esteve ligada durante toda a infância, fazendo o luto destas imagens parentais. Assim, tal como refere Diatkine (1975) o processo da adolescência consiste fundamentalmente na capacidade que o adolescente tem para desinvestir das relações de dependência narcísica que a uniam aos pais, tal como na capacidade que este tem para reinvestir noutros significativos.

Amaral Dias (1982) considera que existem cinco lutos «obrigatórios» no desenvolvimento adolescente, sendo eles o luto pela fonte de segurança, o luto renovado do objecto edipiano, o luto pelo Ideal do Eu, o luto pela bissexualidade e o luto pelo grupo. O luto pela fonte de segurança é o primeiro momento que inicia as novas exigências desenvolvimentais necessárias nesta fase. Aqui o adolescente terá de fazer o luto do investimento edipiano e da dependência dos pais, desenvolvendo um novo modo de relação com estes. No entanto, este movimento intrapsíquico torna-se difícil uma vez que o adolescente tem de desinvestir os aspectos edipianos dos pais na presença destes. Este luto é o chamado luto renovado do objecto edipiano. Ao fazer este luto, surge no adolescente uma culpabilidade por temer ferir a figura materna e consequentemente perdê-la. Assim, o adolescente volta a recorrer ao imaginário para preencher o mundo interno como suporte ao luto das figuras parentais. Contudo, através do processo de crescimento e de autonomização o adolescente vai perder a imagem dos pais idealizados e omnipotentes, que na infância constituíam as fontes do Ideal do Eu, levando assim ao luto pelo Ideal do Eu. Também a imagem que a criança tinha do seu corpo na infância se altera com a instauração da puberdade. A bissexualidade potencial de que a criança se achava portadora na infância (em que a rapariga podia brincar de rapaz e o rapaz de rapariga), sofre alterações ao deparar-se com «apenas» um corpo. Este é o luto pela bissexualidade, onde o adolescente terá de escolher um novo objecto de amor. Neste encontro de um novo objecto de amor dá-se o luto pelo grupo, descrito por Amaral Dias como a “capacidade de estar só”, que é própria do “verdadeiro” adulto.

O luto na adolescência é um tema preponderante para a maioria dos autores, contudo, alguns acrescentam um outro termo: o da depressão. Não se trata aqui de depressão no sentido patológico, mas sim de uma depressão normal no adolescente. Segundo Amaral Dias (1982) o modelo da depressão “é aquele que perspectiva a adolescência como perca dos objectos e como reacção de luto”.

Todo este processo «depressivo» e de luto, não é fácil para o adolescente, fazendo-o sofrer, por vezes, de uma forma catastrófica; contudo, é este processo que permite que ele cresça e se desenvolva de forma a se tornar um adulto psíquicamente saudável.

Muito mais haveria a dizer sobre a adolescência e sobre todos estes processo que se podem verificar no decorrer da mesma. Muitos livros já lhe foram dedicados, contudo, mais do que mostrar todo o seu esplendor (se é que é possível fazê-lo), abordaram-se aqui algumas questões que fazem sentido tendo em conta o rumo que se pretendia seguir.

A adolescência é, sem dúvida, uma época onde o ser se descobre a si mesmo, assim como começa a descobrir, de uma forma completamente diferente de até então, o mundo que o rodeia. Faz sentido, por isso, neste ponto, um trecho da música “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida” de Sérgio Godinho:

“(...)Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida(...)”.

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